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O sentido do sofrimento

Autor: Pe. Marcos Sabater Muñoz

Texto publicado no Kerigma (Março/2019)

Nestes últimos meses, temos vivido, no Brasil, vários acontecimentos tristes que enlutaram os nossos corações. A tragédia de Brumadinho, os desastres naturais em São Paulo e em outras regiões do país, assim como a morte do jornalista Ricardo Boechat e outros fatos dolorosos da vida pessoal de cada um de nós (um familiar doente ou que tentou suicídio, um filho que perdeu o trabalho, uma ruptura familiar etc.) fazem que nos questionemos com seriedade sobre o sentido do sofrimento e, fundamentalmente, da nossa existência. O problema é que, passado um breve tempo, tais reflexões ficam como que sufocadas por causa das preocupações derivadas da rotina e do stress, inimigos do discernimento. Aquilo que poderia mudar o nosso rumo a partir de uma ressonância das grandes questões existenciais (para que vivo? O que quero fazer da minha vida?), ao final, dá em nada. E a vida continua sempre a mesma, trabalhando, vivendo, divertindo-se, alienando-se, e, de vez em quando, algum drama nos torna um tanto fatalistas de cara à realidade.

“Temos para anunciar hoje ao mundo que TODO HOMEM pode encontrar, em Jesus Cristo, a salvação para o seu sofrimento”

Observando a história da humanidade, não se pode negar que muitos são os avanços e triunfos que temos conseguido em prol de nós mesmos e do nosso bem-estar, seja no mundo da medicina, da tecnologia ou das relações internacionais. Porém, também é verdade que o sofrimento constitui, ainda hoje, o nosso calcanhar de Aquiles, especialmente para aqueles que projetaram – como meta da felicidade – a construção do “paraíso perfeito” dentro da figura passageira deste mundo (cf. 1 Cor 7,31). Porém, todo projeto de paraíso terrestre exige uma contrapartida e, neste caso, é a transcendência orientada à verdade última aquela que morre sacrificada em prol de um bem-estar puramente materialista. Ao final, sim, gozaremos de todas as facilidades que a mente/técnica transumanista nos permita, mas os dias da nossa existência se tornam cada vez mais cinzentos e desolados, porque perdemos a arte de sentir e escutar o espírito que geme dentro de nós e que procura a Verdade do ser, a Verdade do amor.

A boa notícia que nós, cristãos em caminho, temos para anunciar hoje ao mundo que TODO HOMEM pode encontrar, em Jesus Cristo, a salvação ao seu sofrimento, não como psicólogo, nem como moralista ou curandeiro. A salvação vem em forma de luz, porque o Senhor é a Luz que ilumina a vida de todo homem, oferecendo-lhe o sentido verdadeiro da sua existência (cf. Gaudium et spes 22). Ante o sofrimento humano, a Trindade tem revelado, no Cristo, uma resposta que, acima de discursos racionalistas e sentimentalistas, doa à pessoa que sofre o Espírito de poder entrar no mistério da morte para ressuscitar com Ele a uma vida nova, abandonando-se por inteiro à divina misericórdia. O sofrimento vivido em Cristo, seja de modo consciente ou não, faz transcender o homem e o catapulta até o céu: a dimensão do amor unitivo com Ele. Esse amor não abandona nem trai, mas permanece sempre fiel e transbordando de esperança.

Diante de tanta aflição e das incontáveis lágrimas derramadas pelas guerras mundiais, genocídios, estruturas de pecado, Deus não fica impassível. Os descrentes perguntam ainda hoje “onde estava Deus quando teve lugar Auschwitz”, no fundo para se lavarem as mãos e subtrair-se à responsabilidade moral pela injustiça que toma conta do mundo. Em realidade, a pergunta que deveríamos nos fazer teria que ser aquela de Deus a Caim: “Onde está Abel, teu irmão?” (Gn 4,9). No ser humano reside um grande mistério do qual o homem é o portador e seu intérprete. Somente por meio dessa autocompreensão que o Espírito Santo alenta na pessoa é que ela poderá ser iluminada e enxergar o sentido pleno do caminho já percorrido e da sua meta final. Deus sofre, mas não como nós sofremos; o seu “padecer” é diverso do nosso, visto que o d’Ele carece de qualquer vestígio de egoísmo ou de incerteza: o seu padecimento é pleno e transbordante de amor vitorioso. A cruz é o sinal dessa fidelidade, não até a morte, mas para a vida eterna.

Sobre o autor: Mestrado em Teologia dogmática com especialização em Cristologia pela Pontifícia Universidade Lateranense (Roma) e professor no Centro de Estudos Filosófico-Teológicos Redemptoris Mater (Brasília)

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